sábado, 7 de maio de 2016

MEMÓRIA

Ele estava certo ao concluir que o tempo é mesmo uma invenção. Naquele dia os ponteiros do relógio pareciam avançar rapidamente, a ponto do ponteiro dos segundos alcançar o ponteiro dos minutos que por sua vez tentava ultrapassar o ponteiro das horas antes mesmo de ambos completarem uma volta completa. 

Ao sair de casa, a sua cabeça girava em torno dos seus afazeres, o que para ele, naquele momento, não era o mais importante. Foi então que atrasado, esperou o elevador pacientemente. E assim, quando a porta do elevador se abriu ele procurou com destreza e rapidez o penúltimo botão do painel. No térreo, apertou o botão para o portão se abrir e ao sair deu duas batidas para que o portão se fechasse. Atravessou a rua correndo, entrou no táxi e disse qual era o seu destino. E assim, veio a sua mente o motivo daquela correria.

Seria mesmo porque estava atrasado? Mas mesmo que não estivesse, ele estaria. Sim, isso mesmo. A questão não era, necessariamente, a hora em que havia acordado, mas os segundos que havia perdido e que poderia ter aproveitado ao lado de quem ele queria.

O trânsito não dava trégua. E ao chegar, subiu com firmeza os degraus que o conduziria ao 1o andar. Surpreendentemente, quem ele queria encontrar parecia estar a sua espera. Digo parecia... o fato é que ele preferia acreditar nisso e foi então que antes mesmo de ensaiar qualquer ato, ao seu encontro, veio quem tinha que vir. E assim agiu da mesma forma de sempre: tentava aproveitar todo e qualquer átimo de segundo para guardá-lo em sua memória.  

... Sempre que aparecia uma nova oportunidade repetia a ação obtendo certa cumplicidade. O que parecia ser apenas uma estratégia se tornaria o seu maior pesadelo. Havia ali, algo a decifrar. E o barulho, as coisas a sua volta, as formas, as pessoas... pareciam pertencer a uma outra dimensão. Capturado, ele não conseguia perder o novo hábito - aproveitar os átimos de segundo. 

Tanto é que por vezes sob um estado quase hipnótico, pensou: "O que digo agora?". E é nessa hora que sua consciência volta ao seu estado normal e ele retorna a mesma dimensão em que todos estavam e estão. E assim as coisas foram se alternado em meio a tantos afazeres. 

Mas o tempo inventado, implacavelmente, reafirma que as coisas têm um prazo de validade. E na despedida tudo parecia se esgotar. Cansado, ele se despede, entra no táxi e diz seu destino. No retorno o pensamento vagueia observando imagens sem significado. E é nessa hora que ele reconhece a importância de sua memória. Mais uma vez ele carrega consigo apenas uma imagem turva de um tempo passado ou presente onde é difícil ver qualquer perspectiva para o futuro. 

Por enquanto, vamos apenas torcer para que ele não chegue atrasado amanhã!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

KAMIKAZE

Tudo ali parado, estático... Nem uma brisa suave... nenhum movimento. Tudo em contraponto ao tempo. Tempo que se divertia sozinho se acumulando em segundos, minutos e horas. O pensamento permanecia fixo, sem nenhuma inspiração, sem alternativas... tudo devido ao descuido. Aprisionado em seus pensamentos e num olhar. A ele só resta mesmo a dúvida e as incertezas. Kamikaze. Na memória: imagem fixa e turva. "Para que tudo mude é  preciso que continue o mesmo".    

domingo, 10 de janeiro de 2016

Reto

Mais um dia quente. A leitura ficava atrasada devido a forte dor de cabeça que permanecia e, que por vezes, o deixava tonto diante das palavras. O silêncio permitia maior concentração, mas o calor parecia competir com a ausência de som. Foi então, que numa pausa, lembrou-se de um outro tempo, outro lugar... Tudo muito passageiro, veloz e efêmero. Nesse instante, voltou-se para o que estava a sua volta. Havia ali apena a concretude das coisas, tudo era claro, límpido e objetivo. Sobre a mesa os objetos de sempre, agora observados em detalhe. O porta lápis continha apenas canetas. O marcador de livros permanecia perdido sobre a mesa. Os livros em posição variada chamavam com certa urgência. As paredes brancas e silenciosas testemunhavam tudo que ali acontecia. A janela quase aberta deixava um pouco de ar invadir o ambiente. E a cadeira girava obedecendo os movimentos de seu próprio corpo. Tudo diante dele. Com toda a agressividade que as coisas concretas, sólidas e estáticas podem apresentar. Não aguentando tanta frieza, suspirou... para mergulhar mais uma vez num universo paralelo e particular. E lá o calor era bem vindo e as coisas funcionavam porque era  necessário e possível. Mais no ápice, o tempo o chamou de volta. E tudo... apenas continuou reto e em silêncio.

domingo, 3 de janeiro de 2016

ZIGUE-ZAGUE

Na conversa, uma perseguição estranha parecia acontecer. Globos oculares procuravam, rotineiramente, uns aos outros, como se cada um tivesse apenas um objetivo: o de capturar. Por vezes, cansados daquele zigue-zague contínuo, pairavam fixos, durante pequenos átimos de segundos. Mas ambos pareciam não encontrar pista alguma. Até que então surgiu um incômodo. Sob um ato de reflexo, quando os olhares se cruzavam, ele buscava um ponto qualquer solto no espaço. Espaço que parecia consistir apenas de dois únicos seres, em que a mesa e a cadeira a qual sentavam flutuavam distante de qualquer realidade que pudesse existir. A concretude do que se tinha ali, podia apenas ser materializada pelos ponteiros do relógio, quando notados nas vezes em que o garçom era chamado para servir mais uma cerveja. O assunto se diversificava e as pessoas que chegavam pareciam não ser vistas. Tornara-se então natural buscar nas retinas dela algum significado para o que acontecia. Seria esse um objetivo comum a ambos? O corpo começava a demonstrar os efeitos de um dia quente e tumultuado, comum em todo final de ano. Aos poucos a mesa e as cadeiras onde estavam pareciam aterrissar. E quando já fincadas no chão, ele percebeu que toda aquela perseguição seria inútil. O relógio sussurra "peça a conta". Ele, prontamente, aceita a imposição do tempo: "Garçom, a conta por favor!" Enquanto a máquina registradora fincava com certa força os números na nota fiscal, as retinas permaneceram fixas ultrapassando o átimo de segundo anterior. O tempo se quebra diante da máquina trazida para que o pagamento da conta pudesse ser feito. Após recusar a sua via, ele a olhou mais uma vez. E talvez, estivesse buscando certa sinceridade que as palavras dissimulam. Levantaram e deixaram os lugares vazios. Na esquina, cada um escolheu o próprio caminho e ficaram apenas com as palavras. Agora, o zigue-zague continua. Talvez, apenas para alimentar, o desejo de uma curiosidade ou de uma descoberta.   

domingo, 26 de janeiro de 2014

POR UM TRIZ

Quando se patina pelo gelo fino a segurança está na velocidade!

domingo, 23 de dezembro de 2012

FELIZ NATAL!


O cartaz anuncia as promoções, enquanto a escada rolante despeja mais gente no 2º piso do edifício. Muitas pessoas andam de um lado ao outro, enquanto sacolas roçam em suas próprias pernas. A vitrine chama a atenção da criança. O rapaz parece irritado e cansado. A moça experimenta o 3º vestido. E mais gente é deixada pela escada rolante no 2º piso.

As máquinas de cartões parecem incansáveis. Já o ar condicionado demonstra os primeiros sinais de saturação. O ritmo é o da música eletrônica, batidas repetidas, sem desenho melódico. Uma criança chora abraçando as pernas do pai. No caixa eletrônico alguém bloqueia seu próprio cartão. Na livraria um rapaz admira algumas páginas de um livro grosso cujo título diz: “Em busca das causas perdidas” – Slavoj Zizek.

E, finalmente, João e Maria compram o último presente. Na saída reconhecem o funcionamento do ar condicionado. E talvez por terem nas mãos as sacolas com presentes ignoram a súplica de uma senhora e suas duas filhas: “Uma ajudinha, por favor!”.

O semáforo verde indica que podem ir para casa, sem esperar. No trajeto um senhor na porta de uma igreja pede 1 real. Ninguém o ouve, ou melhor, ninguém o vê. Em casa, João e Maria distribuem os presentes em volta da árvore de natal. E da janela observam crianças no sinal de trânsito vendendo doces. João suspira e Maria olha piedosamente. Cansados, os dois permanecem mudos.

Os ponteiros do relógio se adiantam. Agora, João e Maria, esperam a ceia. Meia noite e… Feliz Natal! Mas antes de saborear os quitutes: os presentes.

Não muito distante deles, a escada rolante descansa, enquanto uma família, moradora de rua, observa na vitrine o piscar das luzes de uma árvore de natal. Um carro se aproxima trazendo sopa. Um senhor sério, vestindo caça jeans e camisa branca entrega a cada um deles uma “quentinha”, e repete, os votos mais ditos naquela noite: "Feliz Natal!"

Enquanto isso… No apartamento 701, Maria diz: “João a sobremesa está servida!”.

sábado, 15 de dezembro de 2012

SOBRE O TEMPO E A DISTÂNCIA


Tem momentos em que é necessário partir. Partir rumo à separação. Separar-se do mundo. Deletar. E para sorte de todos nós, o tempo corre rápido e permite não lembrar. Não foi diferente com ele. Montou sua estratégia e meio como quem sai à francesa resolveu andar por outros mundos. Talvez porque estivesse embriagado ou cheio de tantos detalhes que o deixava em situação difícil.

Aquela proximidade parecia transformar todas as coisas a sua volta. Tudo ia ficando perigoso demais. Perigo presente nas coisas unilaterais e nas conversas atravessadas. Nada poderia ser relativo, pois se fosse, tudo estaria errado. Porque sendo tudo relativo, estamos sendo absolutos.

 Mas o que o fez se distanciar? Talvez certa consciência do estado das coisas. Aos poucos sabia que estava sendo capturado. E assim cumpria a rotina de quem vive rodeado de grades. É como se por um instante tivera esquecido o controle da TV sobre a mesinha da sala. E quando se deu conta disso, o controle estava em outras mãos. E diante da necessidade buscou a distância.

Caminhou em outra direção enquanto o tempo passava. E cansado, resolveu parar para descansar. Olhou para frente e o que viu foi que havia chegado ao mesmo lugar de outrora. Isso mesmo. Reencontrou as mesmas pessoas, os mesmos personagens, as mesmas falas, os mesmos gestos, os mesmos olhares, …

Novamente, viu o mesmo ciclo se repetir. E antes de se embriagar, com tudo ali diante dele, concluiu: ‘preciso de um tempo maior’. Preciso de uma distância maior. Maior do que a entre a Terra e Lua. Na Lua é difícil caminhar com os pés fincados no chão.

Algumas pessoas nunca poderiam se encontrar.